Ansiedade nem sempre parece ansiedade: sinais que podem passar despercebidos

Quando pensamos em ansiedade, é comum imaginar alguém muito preocupado, agitado, com o coração acelerado ou em plena crise.

Mas a ansiedade nem sempre aparece dessa forma.

Às vezes, ela está presente na dificuldade de descansar, na irritação constante, na necessidade de controlar tudo, no medo de errar ou na sensação de que é preciso estar sempre fazendo alguma coisa.

E justamente por não parecer ansiedade, alguns sinais podem passar despercebidos por muito tempo.

Quando estar sempre em alerta parece normal

Algumas pessoas convivem tanto tempo com a ansiedade que passam a considerar esse estado parte da própria personalidade.

“Eu sempre fui assim.”

“Minha cabeça funciona desse jeito.”

“Tenho muita necessidade de controle.”

“Não consigo ficar sem fazer nada.”

“Preciso deixar tudo organizado.”

Essas características, isoladamente, não significam que exista um transtorno de ansiedade.

Mas vale observar quando deixam de ser apenas traços pessoais e começam a produzir sofrimento, desgaste ou limitações na vida.

Irritabilidade também pode aparecer na ansiedade

Nem sempre uma pessoa ansiosa parece preocupada. Ela pode parecer impaciente.

Pequenos imprevistos incomodam mais do que deveriam. Barulhos irritam. Uma mudança de planos gera uma reação intensa. A tolerância para lidar com outras pessoas diminui.

Quando o corpo e a mente permanecem em estado de alerta por muito tempo, há desgaste. Por isso, em algumas pessoas, a ansiedade aparece mais como irritabilidade do que como medo.

Dificuldade para descansar

Você finalmente tem um tempo livre, mas não consegue aproveitá-lo.

Senta no sofá e pensa no que deveria estar fazendo. Tenta descansar e sente culpa. Durante uma viagem ou um fim de semana, continua resolvendo mentalmente problemas do trabalho, da casa ou da família.

O corpo até parou. A mente, não.

Para algumas pessoas, descansar provoca uma sensação estranha de improdutividade ou de perda de controle. E então até os momentos que deveriam ser de recuperação acabam preenchidos por tarefas, preocupações ou planejamento.

A necessidade de controlar tudo

Planejar e organizar fazem parte da vida. Mas existe uma diferença entre organização e a sensação de que tudo precisa estar sob controle para que seja possível relaxar.

Nesse caso, a pessoa tenta prever todos os problemas, organiza os detalhes de forma excessiva, tem dificuldade para delegar e fica muito desconfortável quando algo acontece de maneira diferente do esperado.

Por trás dessa necessidade de controle, muitas vezes existe uma tentativa de diminuir a incerteza. O problema é que a vida não oferece garantias completas.

Quanto mais tentamos eliminar todas as possibilidades de algo dar errado, mais atenção passamos a dar àquilo que não conseguimos controlar.

Procrastinação também pode estar relacionada à ansiedade

À primeira vista, procrastinar parece o contrário de ansiedade. Mas nem sempre é.

Uma pessoa pode adiar uma tarefa por medo de não realizá-la bem. Pode demorar para responder uma mensagem porque não sabe qual seria a resposta “certa”. Pode evitar uma decisão porque teme se arrepender. Pode passar horas preparando algo porque acredita que ainda não está bom o suficiente.

Nesses casos, não se trata simplesmente de falta de vontade. Às vezes existe medo de errar, perfeccionismo ou dificuldade de lidar com a possibilidade de um resultado diferente do esperado.

Pensar demais antes de tomar decisões

“E se eu escolher errado?”

“E se eu me arrepender?”

“E se existir uma opção melhor?”

A pessoa analisa. Depois analisa novamente. Pede a opinião de alguém. Pesquisa mais um pouco. Volta para a primeira opção.

Quando existe uma necessidade muito grande de ter certeza antes de decidir, até escolhas simples podem se tornar cansativas.

Talvez a dificuldade não esteja na decisão em si, mas em aceitar que nenhuma escolha vem acompanhada de garantia absoluta.

Sintomas físicos sem explicação óbvia

A ansiedade também pode aparecer no corpo. Tensão muscular, dores de cabeça, alterações gastrointestinais, aperto no peito, palpitações, suor excessivo, tremores e dificuldade para dormir podem acompanhar períodos de ansiedade.

Isso não significa que todo sintoma físico tenha origem emocional. Sintomas novos, intensos ou persistentes devem ser avaliados por profissionais de saúde.

Mas corpo e emoções não funcionam separadamente, e a ativação frequente do sistema de alerta pode gerar manifestações físicas importantes.

Buscar constantemente a certeza de que está tudo bem

“Você acha que fiz alguma coisa errada?”

“Tem certeza de que está tudo bem entre nós?”

“Você acha que isso é normal?”

Ouvir que está tudo bem traz alívio. Por algum tempo. Depois surge outra dúvida, e com ela a necessidade de nova confirmação.

Buscar apoio faz parte das relações humanas. O ponto de atenção aparece quando precisamos, repetidamente, que outra pessoa elimine nossas dúvidas para conseguirmos nos tranquilizar.

Evitar também pode parecer uma solução

Não ir a determinado lugar. Adiar uma conversa. Evitar um caminho ao dirigir. Fugir de falar em público. Deixar de tentar algo porque existe a possibilidade de falhar.

A evitação costuma funcionar muito bem para diminuir a ansiedade naquele momento. E justamente por funcionar tão rápido, pode virar um padrão.

Aos poucos, a pessoa passa a organizar a vida não pelo que deseja fazer, mas pelo que precisa evitar para não sentir ansiedade.

Então, como saber se é ansiedade?

Nenhum desses sinais, isoladamente, permite concluir que uma pessoa tenha um transtorno de ansiedade. É preciso considerar frequência, intensidade, duração, contexto e o impacto na vida.

Uma pergunta útil:

Quanto da minha rotina está sendo organizada em torno da tentativa de evitar desconforto, erro, incerteza ou perda de controle?

Na psicoterapia

Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), buscamos compreender não apenas os sintomas, mas também os padrões de pensamento e comportamento relacionados à ansiedade.

Isso pode envolver identificar as situações que ativam o estado de alerta, observar pensamentos automáticos, reconhecer comportamentos de evitação ou de busca excessiva por segurança e desenvolver novas formas de responder ao que provoca ansiedade.

O objetivo não é eliminar toda a ansiedade. Ela faz parte da vida. O trabalho é aprender a reconhecer quando ela cumpre sua função e quando começa a ocupar mais espaço do que deveria.

Porque, às vezes, a ansiedade não chega dizendo:

“Estou com ansiedade.

“Ela pode aparecer como:

“Preciso ter certeza.”

“Não posso errar.” “Depois eu faço.”

“Não consigo descansar.”

“Se eu controlar tudo, talvez fique tudo bem.”

Reconhecer esses padrões pode ser o primeiro passo para lidar com eles de outra maneira.

Rosana Britzki De Sordi

Psicóloga – CRP 06/18717

Especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental e Transtornos de Ansiedade

Psicoterapia online

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